Desisti de tentar ser normal...
Considero-me uma pessoa com um alto coeficiente de adaptação. Tudo pode ser mudado: a língua, o clima, as roupas... Talvez por esta característica, eu possua a incapacidade de colocar os objetos sempre de volta no mesmo lugar onde estavam. Quando em salas de seminários, ou na época de estudos, na sala de aula, eu nao gostava de me sentar sempre no mesmo lugar. Mas como cada um tinha o seu, tentar possuir um lugar diferente era algo que incomodaria os demais.
Eu nao sei o porque. São poucas as coisas que me incomodam. Barulho nao é uma delas. Podem conversar alto, fazer festa, tocar guitarra. Nada disso me atrapalha a dormir. Alias, eu consigo dormir com facilidade em qualquer lugar, principalmente em salas de espera de consultórios, durante aulas com Power Point ou no ponto de ônibus. Mas tenho muita dificuldade para pegar no sono se houver alguma pessoa por perto com uma respiração profunda, audível. A frequência da respiração da pessoa alheia interfere na frequência da minha respiração e isso me impede de pegar no sono. Ronco então, é ainda pior. O ronco nao possui uma freqüência definida, é um ruído imprevisível, sem ritmo. Essa inconstância me irrita. Sim, me irrita.
Essa irritação se dá, acredito, porque eu dou uma extrema importância a todos os sons ao meu redor. Simplesmente, eu escuto tudo, principalmente cochichos. Quando estou trabalhando no escritório, sei exatamente onde cada um está, sem que me vire para olhar, apenas escuto o barulhos dos passos. A maneira de andar, o tipo de sapato, são fatores que produzem uma batida diferente no chão.
É tamanha a importância do som para mim que eu costumo me lembrar das pessoas muito mais pela voz do que pela fisionomia do rosto. A voz também me permite as vezes, identificar as emoções. Talvez porque eu tenha estado tanto tempo por aqui na Alemanha, sem entender muita coisa, que aprendi a interpretar os tons ao invés das palavras. Cheguei a um ponto que nao me importa o que dizem, e sim, como dizem. Recordo-me das frases mais do que das imagens. Seria isso um tipo de memória sonora?
Ironicamente, nao gosto de falar ao telefone. Das raras vezes que uso esse aparato, geralmente fico um tanto sem jeito. Prefiro conversar pessoalmente e quando nao é possível, por e-mail mesmo.
Um outro detalhe: eu tenho mania de contar as coisas que se repetem. Quantas vezes o palestrante ajeitou a gola da camisa, quantos cafés o rapaz da mesa ao lado toma, quantos cigarros o outro rapaz fuma por dia... Eu fico contando tudo, principalmente, o tempo. Sei que preciso de em média 3 minutos da minha casa ao ponto de ônibus, 12 minutos para comer o meu cereal e 25 minutos para limpar a sacada do meu quarto.
Tanta atenção ao tempo me faz planejar minuciosamente o meu dia todos os dias, com aquelas listinhas de afazeres e metas. Sempre fui assim, desde criança. Amo compromissos marcados com antecedência e nao gosto muito de programas de última hora . Faco exceção apenas para amigos e família.
Café é algo que eu bebo apenas socialmente, de vez em nunca, quando faco alguma visita e a pessoa oferece com todo o carinho: você aceita um cafezinho? Nao é que eu nao goste de café. O sabor me agrada e muito, mas os efeitos são catastróficos. Eu perco metade da minha coordenação motora após uma xícara de café. Tremo e fico extremamente ansiosa. Consigo viver sem café. As minhas compulsões são outras... Eu consigo devorar um pode de mel em um dia (algo em comum com o ursinho Pooh), ou então comer meio quilo de azeitonas - verdes, nunca comi uma preta, elas me são estranhas...
Álcool então? Nein, danke. Aprecio um bom vinho, mas aprecio muito mais um bom suco de uva...
Isso tudo fora as minhas manias de pessoa antiga...
É muito estranho?